sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Indígenas desocupam ferrovia Carajás, da Vale, no Maranhão 

 Após Justiça determinar desbloqueio imediato, movimento divulga documento 

 

 

São Paulo – Os indígenas guajajara e awá-guajá que ocupavam a Estrada de Ferro Carajás (EFC), no Maranhão, desde terça-feira (2), levantaram o bloqueio hoje (5) durante a madrugada. A ferrovia pertence à mineradora Vale, que obteve uma liminar da 5ª Vara da Justiça Federal do Maranhão, assinada pela juíza Clemência Maria Almada Lima de Angelo, que determinou a desocupação imediata. Os cerca de 100 índios que participavam da manifestação compõem o Movimento Indígena Pindaré Caru e protestavam contra a Portaria 303, da Advocacia Geral da União.
A ocupação ocorria no quilômetro 289 da estrada de ferro, entre os povoados de Minheirnho e a Auzilândia, no município de Alto Alegre do Pindaré, a aproximadamente 340 quilômetros de São Luís. Os passageiros cujo destino era a capital maranhense eram obrigados a desembarcar em Açailândia e a tomar ônibus colocados à disposição pela empresa, mas a ferrovia já está funcionando normalmente.
A Vale realiza atualmente a duplicação da estrada de ferro Carajás, projeto que poderá ser facilitado com a portaria da AGU, que restringe os direitos dos indígenas sobre suas comunidades. Em nota, a empresa critica a manifestação e “reitera o seu repúdio a atos arbitrários e violentos de invasão da ferrovia e informa que pedirá à Policia Federal e ao Ministério Público a apuração da autoria e materialidade do crime de perigo de desastre ferroviário, entre outros”.
A Portaria 303, publicada em julho, foi prorrogada e entrará em vigor logo após a votação no Supremo Tribunal Federal (STF) das condicionantes da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. A ementa da portaria diz que ela “dispõe sobre as salvaguardas institucionais às terras indígenas”. A portaria restringe o usufruto das comunidades sobre os seus territórios. De acordo com os movimentos indígenas, com a ementa, novas demarcações de terras serão inviabilizadas, territórios indígenas já demarcados e homologados poderão ser revistos, e hidrelétricas, unidades governamentais e postos militares poderão ser instalados em terras indígenas, sem a consulta prévias aos seus habitantes.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), diversos movimentos indígenas e juristas afirmam que a Portaria 303 é inconstitucional, já que o advogado-geral da União,  Luís Inácio Lucena Adams, autor da portaria, não tem competência para impor sua interpretação a quem não é seu subordinado. Portarias são atos administrativos internos, pelos quais os chefes dos poderes ou os chefes de órgãos, repartições ou serviços expedem determinações gerais ou especiais a seus subordinados, ou simplesmente para nomear servidores para funções e cargos secundários. A AGU é o órgão que representa a União judicialmente e serve de consultoria e assessoramento jurídico do Poder Executivo, mas sua portaria não tem a força da lei, entendem os movimentos.
Desde a publicação da Portaria 303, diversas manifestações indígenas ocorreram no país, como no Distrito Federal, no Mato Grosso e em Rondônia. O Conselho Indígena Missionário (Cimi) divulgou documento, produzido pelo Movimento Indígena Pindaré Caru, em que declara que fará outros tipos de manifestação e afirma esperar inspirar outros movimentos indígenas. O documento diz que o bloqueio da ferrovia teve a intenção de chamar a atenção do governo e da sociedade para a gravidade da situação. "A nossa mobilização não se resumirá ao bloqueio da ferrovia, mas implicará também em várias outras estratégias, para barrar o retrocesso institucional que nos ameaça e afronta nossos direitos fundamentais", diz o comunicado.


Informações: http://www.redebrasilatual.com.br

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Funai cria novas Terras Indígenas

A Famato analisou as últimas criações e/ou ampliações de TI’s em Mato Grosso e constatou que a média de cada área corresponde a 150 mil hectares  
 A Fundação Nacional do Índio (Funai) publicou uma portaria criando mais uma Terra Indígena (TI), a Kapôt Nhinore, entre os municípios de Vila Rica e São José do Xingu, em Mato Grosso, e São Félix do Xingú, no Pará. Para dar sequência a esta decisão, a Fundação constituiu um grupo de trabalho, formado por funcionários da Funai e pessoas indicadas pela fundação, que conduzirá os estudos de delimitação desta área. Agora são 21 TI’s em estudo para criação ou ampliação. A portaria foi publicada dia 19 de setembro de 2012.


A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) acompanha estes processos de ampliação de áreas indígenas com atenção a fim de prestar toda orientação necessária aos produtores rurais que tiverem propriedades inseridas nessas novas delimitações. De acordo com dados da própria Funai, Mato Grosso possui 57 TI’s regularizadas, com área total de 11,28 milhões de hectares (ha) para uma população de 24,9 mil índios. Além destas, existem seis TI’s delimitadas (1,5 milhões de ha) e oito TI’s declaradas (841,08 mil ha). As áreas declaradas são aquelas que já possuem os perímetros definidos. E as delimitadas são as que estão demarcadas fisicamente por meio de marcos geográficos e reconhecidas pelo Ministério da Justiça.


Para a criação de uma TI, a Funai segue alguma etapas internamente: a primeira refere-se à elaboração de planos e estudos de viabilidade para formação da TI e posterior publicação no Diário Oficial da União. Em seguida, esta área em estudo passa pela análise de outros departamentos da própria fundação e segue para validação do Ministério da Justiça. Este é um ponto que merece destaque: “A Funai exerce os três poderes ao criar uma Terra Indígena, ou seja, emite as instruções normativas como poder Legislativo, demarca como poder Executivo e cuida dos recursos administrativos como o Judiciário. E tudo isso sem dar a chance para que as pessoas residentes nas áreas se manifestem. Isso é muito preocupante. Em um estado de direito como o nosso é o trabalho entre instâncias distintas e independentes que garante a transparência de todo o processo.”, avalia Prado.


Para se ter uma ideia da complexidade e da abrangência do assunto, a Famato analisou as últimas criações e/ou ampliações de TI’s em Mato Grosso e constatou que a média de cada área corresponde a 150 mil hectares. Se considerar as 21 novas terras que estão em estudo, serão cera de 3 milhões de hectares, além dos 13 milhões ha existentes entre as regularizadas, delimitadas e demarcadas. Isso representa 18% da área do Estado de Mato Grosso.



“É direito constitucional e é justo que os índios tenham terras. Mas é importante lembrar que estes processos de criação ou ampliação de áreas indígenas atingem vários setores da sociedade e não apenas os produtores rurais. E todos os índios e não índios devem ser ouvidos”, destaca Prado.
 http://www.expressomt.com.br

Mais de 1,9 mil indígenas votarão nas eleições de domingo em Rondônia

 Cinco aldeias terão sessão específica para os índios.Distrito de Surpresa também terá zona eleitoral para atender 20 tribos.

 

 

No estado de Rondônia, 1.902 índios são eleitores que podem votar nas eleições 2012 e terão sessões específicas para facilitar o acesso às urnas. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) habilitou cinco aldeias do estado como locais de votação, além do distrito de Surpresa, em Guajará-Mirim, que irá atender mais de 20 tribos indígenas diferentes.
As cinco aldeias indígenas habilitadas ficam localizadas em diferentes cidades do estado. Uma em Porto Velho, na aldeia central da etnia karitiana; duas em Alta Floresta do Oeste, localizadas na terra indígena Rio Branco e outra na aldeia Cajuí; e outras três em Guajará-Mirim, uma no posto indígena Santo André, no Rio Pacaas Novos, uma no posto indígena Rio Negro Ocaia e outra no Distrito de Surpresa.
Embora o distrito de Surpresa não seja território indígena, a 1ª zona eleitoral atenderá 889 índios. Segundo o chefe de cartório desta zona, João Paulo Rodrigues de Lima, o local foi escolhido por conseguir atender mais de 20 tribos diferentes e possuir energia elétrica e melhor infraestrutura.
A sessão montada na capital, para a etnia karitiana, terá um diferencial. Os mesários que irão trabalhar na eleição são os próprios índios da aldeia, que foram treinados por uma equipe da 24ª zona eleitoral do TRE. Em 2012, será a primeira vez que a votação será realizada na aldeia e cerca de 80 índios estão habilitados a votar nesta zona.
Em Alta Floresta, a 17ª zona eleitoral também fornecerá alimentação para os indígenas que votarem no local. De acordo com Fabrício Zanetti Casagrande, chefe da zona, essa decisão foi tomada por causa da dificuldade de locomoção dos eleitores, que é feita de barcos e canoas. Os eleitores da sessão da aldeia de Cajuí residem em áreas localizadas às margens do Rio Branco e as etnias mais comuns são tupari, makurapi e aruá.
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 Do G1 RO

Os índios, hoje


Alguns indígenas brasileiros ainda vivem isolados e sem contato com o homem branco, mas boa parte deles está integrada à vida moderna.
19 de abril é o Dia do Índio e, para comemorar a data, é comum que crianças pintem o rosto e façam enfeites que imitam cocares para colocar na cabeça. Esses são dois costumes conhecidos dos índios, mas eles têm muitos outros hábitos que estão se modificando ao longo do tempo. Vários, como tomar banho todos os dias, nós herdamos desses povos, assim como algumas palavras, como abacaxi e outras que dão nome a cidades por todo o Brasil, como Itacarambi e Itabirito.

Hoje, são 230 povos e, pelo menos a metade, vive quase que exclusivamente das fontes tradicionais (caça e pesca), como os Piripikura que vivem no Mato Grosso, enquanto outros já sabem usar computador, falam português e até atuam como políticos. Como você pode perceber, não dá para generalizar o modo de viver dos índios porque cada grupo vive de um jeito. Muitas pessoas se lamentam por pensarem que os indígenas estão perdendo sua cultura por ficarem cada vez mais parecidos com os homens brancos. Mas os indígenas se defendem e dizem que o modo de vida de toda sociedade se transforma com o passar do tempo e, com eles, não poderia ser diferente.

“As pessoas, normalmente, têm uma imagem do índio de 1500, da época da colonização, que vive na mata e é alheio às tecnologias. Na verdade, tudo caminhou, inclusive nas comunidades indígenas. A cultura é mutável mesmo, não é fixa”, explica Verônica Mendes Pereira, mestre em educação escolar indígena e professora do curso de licenciatura indígena da UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais – ela dá aula para os professores índios para que eles possam ensinar melhor aos seus alunos indiozinhos nas escolas.

DIFERENTE, MAS IGUAL
Hoje, existem muitos índios que vivem em casas que têm luz elétrica e som. Já somam 5 mil os índios matriculados em universidades, estudando Medicina e Direito, por exemplo, e 20 mil os professores indígenas que ensinam nas línguas que falam. “O que caracteriza ser índio ou não é o jeito de viver, que está muito ligado a símbolos: por exemplo, o jeito de eles explicarem como acontecem os fenômenos da natureza, como os trovões, a chuva...é tudo mitológico”, diz a professora.

Ela conta, ainda, que mitos não são mentirinhas, mas são as maneiras com que cada tribo explica o mundo, é a ciência delas. “Os Xacriabá não falam língua indígena, mas preservam o mito de Iaiá Cabocla, que é uma onça que protege o território, as crianças e a aldeia. Um índio não deixa de ser índio porque tem carro”, defende.

“Os índios mantêm um espírito de continuidade, voltam às suas terras para fazer seus rituais. Alguns ainda vivem caçando e pescando como fizeram na vinda dos portugueses, outros vivem de em contato com os brancos, mas preservam sua cultura. O contato com outras culturas leva à adaptação. Os brasileiros também vivem com uma série de criações dos europeus e norte americanos” , diz o professor do Departamento de Antropologia da UFF - Universidade Federal Fluminense - Mércio Gomes, que também foi presidente da FUNAI – Fundação Nacional do Índio – de 2003 a 2007.

ESCOLA DE ÍNDIO
Aproximadamente, 0,5% da população brasileira é indígena, está distribuída em todos os estados do país com maior concentração no Norte. Existem 180 línguas diferentes e essa é apenas uma das características que diferencia um grupo dos outros.

De acordo com Verônica, a partir da legislação de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, os índios conquistaram seus direitos, o que colaborou para o aumento das populações. O professor Mércio discorda. Ele afirma que, mesmo antes dessa Constituição, o número de indígenas crescia e eles já tinham alguns direitos.

“A grande alegria para a nação brasileira é que passados 500 anos da chegada dos portugueses, os povos indígenas estão crescendo. Na década de 1970, eles pareciam entrar em extinção, porque eles morriam de varíola, tuberculose e sarampo. Com o tempo, os remédios foram chegando, algumas doenças acabaram, eles adquiriram imunidade e, hoje, eles crescem a 4% ao ano enquanto o Brasil cresce a menos de 2%”, conta o professor. A população era de 100 mil, em 1955, e, agora, eles são 500 mil. Em cinquenta anos, eles quase quintuplicaram!

Uma vitória indiscutível da Constituição de 1988 é a escola indígena, um lugar de ensino onde os alunos e os professores são índios. Nelas, eles podem ensinar apenas na língua própria, em português, ou nos dois idiomas. Os professores que dão aula nesses colégios são preparados por outras pessoas que trabalham em universidades, como a Verônica.

A ideia é que a escola tenha “um pé dentro da aldeia e o outro fora dela”, o que significa que os estudantes aprendem conteúdos ligados à cultura deles, como na disciplina “o uso da terra” que ensina a composição do solo, o tipo de plantas que nasceram ali, quais os chás que podem ser feitos e para que eles servem. Ao mesmo tempo, estudam como o governo e a sociedade podem ajudá-los, que direitos eles têm, entre outras utilidades. Aliás, um problema comum aos índios é a demarcação de terras – espaço destinados para eles morarem.

POR QUE DIA 19 DE ABRIL?
A data foi criada no Brasil pelo presidente Getúlio Vargas, em 1943. A escolha foi uma homenagem ao I Congresso Indigenista Interamericano, um evento realizado no México, em 1940, que reuniu representantes de países da América para tomar decisões políticas importantes.

Os índios também foram convidados, mas ficaram desconfiados. A história de convivência entre homens brancos e índios não é pacífica, mas repleta de guerras. Depois de alguns dias, porém, os indígenas resolveram dar um voto de confiança e foram à reunião no dia 19 de abril.


Informações : http://planetasustentavel.abril.com.br/

Na fronteira Brasil-Peru, índios se mobilizam contra obras binacionais




A anexação do Acre pelo Brasil em 1904 deixou em países distintos povos que habitavam uma mesma região. Mas a exploração econômica da área tem estimulado a aproximação entre esses grupos indígenas, em prol de uma estratégia comum na defesa de seus direitos.


Inaugurada em 2011 e batizada de Interoceânica, a rodovia que liga o noroeste brasileiro a portos peruanos no Pacífico foi construída com a promessa de desenvolver a região e é o carro-chefe de uma série de obras destinadas a ampliar a integração entre Brasil e Peru nos próximos anos.
Índios peruanos e brasileiros, porém, temem os efeitos que esses empreendimentos possam ter numa das áreas mais isoladas da América do Sul, em território ainda largamente coberto pela floresta amazônica.
Eles também se dizem preocupados com os projetos de exploração de petróleo e gás natural nos dois lados da fronteira e com as ameaças aos índios isolados da região.
Segundo o Censo de 2010, há 15.921 índios no Acre. A maioria vive nas cerca de 30 Terras Indígenas (TI) no Estado, quase todas na região de fronteira.
No lado peruano, faltam dados precisos sobre a quantidade de índios, mas, segundo o Censo de 2007, há cerca de 270 comunidades indígenas nos Departamentos (Estados) de Uyacali e Madre de Dios, que fazem fronteira com o Acre.
Migração massiva
Alcoolismo e prostituição
Jaime Corisepa, presidente da Federação Nativa do Rio Madre de Dios e Afluentes (Fenamad), principal movimento indígena de Madre de Dios, diz que a Interoceânica causou um grande impacto na região, ao permitir a migração massiva de moradores da cordilheira dos Andes para a Amazônia peruana.
Atraídos pelo ouro em Madre de Dios, milhares desses migrantes têm se instalado em acampamentos à beira da rodovia, desmatando a floresta e poluindo os rios com o garimpo.
"Essa superpopulação destrói o meio ambiente, que é nossa fonte de comida", afirma. A BBC Brasil visitou alguns desses acampamentos, repletos de bares e casas de prostituição.
Corisepa defende, no entanto, que os índios possam explorar ouro em seus territórios, como já têm feito, para compensar a falta de atenção governamental. "As comunidades indígenas têm direito a uma melhor qualidade de vida. O Estado nunca vai investir em educação indígena, então temos que ganhar dinheiro para investir."
Corisepa diz temer um agravamento das condições na região caso os próximos projetos de integração binacional saiam do papel, como um acordo energético que prevê a construção de seis hidrelétricas no Peru para abastecer o mercado brasileiro.
"As pessoas desalojadas pelas hidrelétricas entrarão nas comunidades indígenas. Não fomos consultados sobre as obras nem informados sobre como elas vão nos beneficiar", afirma.
Nos últimos meses, protestos de indígenas fizeram o governo suspender o acordo e anunciar que ele só vigorará após as comunidades tradicionais serem consultadas, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Em seu trecho brasileiro, a Interoceânica também impactou indígenas.
Segundo Juan Scalia, coordenador-substituto da Funai (Fundação Nacional do Índio) em Rio Branco, em duas comunidades no Amazonas cortadas pela estrada houve incremento nos casos de alcoolismo entre índios (há bares a menos de 500 metros das aldeias), de caça e pesca ilegal e na ação de madeireiros.
Ele também afirma que, em obras como essa, é comum que índias sejam assediadas por operários e, não raro, acabem se prostituindo.
Casa de prostituição em acampamento de mineradores à beira da Interoceânica, no Peru (Foto João Fellet/BBC Brasil)
Casa de prostituição em acampamento de mineradores à beira da Interoceânica, no Peru
Nem todos, porém, condenam a estrada. Moradores de aldeias cortadas pela Interoceânica dizem que ela barateou produtos nos mercados locais e rompeu o isolamento da região.
"Antes a estrada era só barro e dava várias voltas. Levávamos dois dias e uma noite para percorrê-la a pé até a cidade mais próxima, porque raramente havia transporte", diz Emilda Yanarico, comerciante e moradora de Iñapari, cidade peruana na fronteira com o Brasil.
Se os planos de governantes locais forem concretizados, Iñapari ganhará outra estrada nos próximos anos. A obra a ligaria a Puerto Esperanza, cidade peruana também na fronteira com o Brasil, só que mais ao norte.
Embora a estrada só vá cortar o território peruano, índios brasileiros da região fronteiriça têm se mobilizado contra a obra.

Tráfico de drogas

Lucas Manchineri, morador da Terra Índigena (TI) Mamoadate, no Acre, diz que a estrada intensificará a ação de madeireiros e o tráfico de drogas na fronteira, problemas que já afetam sua comunidade, segundo ele.
Manchineri afirma que, nos últimos dez anos, cerca de 50 traficantes foram detidos por índios enquanto atravessavam sua TI, tendo sido posteriormente entregues a autoridades brasileiras. "Estamos fazendo o trabalho da Polícia Federal e do Exército."
Ele também se diz preocupado com as consequências da nova estrada para os índios não contatados que habitam a região, estimados em algumas centenas pela Funai. Para Manchineri, com a estrada, essa população buscará refúgio em áreas ocupadas por outros indígenas, o que pode desencadear conflitos.
Pelas mesmas razões, outra obra planejada na região fronteiriça preocupa índios dos dois lados: a construção de uma estrada ou de uma ferrovia entre Cruzeiro do Sul (AC) e Pucallpa, no Peru.
Há ainda temores quanto à exploração de petróleo e gás natural na região. No lado peruano, vários lotes já foram cedidos a empresas privadas para a prospecção dos bens. No brasileiro, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) deve concluir neste ano testes sísmicos para avaliar a viabilidade da exploração dos recursos.
"Para o governo, progresso é extrair petróleo, abrir estrada, plantar soja, derrubar madeira. A região vai se tornar um paraíso para empresas sujas", diz o líder indígena brasileiro Tashka Yawanawá.

Reuniões

A articulação entre índios brasileiros e peruanos da região fronteiriça é facilitada por fatores históricos. Marcela Vecchione, consultora da Comissão Pró-Índio (CPI) do Acre, diz que as fronteiras amazônicas foram definidas conforme critérios econômicos e não levaram em conta as comunidades indígenas presentes, que em muitos casos foram divididas pelos limites nacionais.
Ao longo de várias décadas, segundo Vecchione, esses povos mantiveram relação intensa com os do país vizinho, cruzando a fronteira livremente.
Com a demarcação de terras indígenas pelos governos do Brasil e do Peru nas últimas décadas, porém, esse fluxo foi em larga medida interrompido, embora muitos povos "binacionais" (ou até "trinacionais", nos casos em que também possuam integrantes na Bolívia) mantenham alianças por meio de casamentos e relações de parentesco com índios do país vizinho.
As ameaças comuns sofridas nos dois lados da fronteira, no entanto, têm encorajado uma aproximação maior entre esses povos, que promoveram numerosas reuniões nos últimos anos.
Parte desses encontros tratou da migração de índios peruanos para o Brasil. Em 2004, segundo a CPI-Acre, a extração de madeira em território indígena ashaninka no Peru (atividade permitida naquele país, desde que aprovada pela comunidade indígena local) desestabilizou as aldeias e fez muitas famílias se mudarem para um território ashaninka do lado brasileiro.
Temendo os efeitos dessa migração, os ashaninka brasileiros procuram a Funai. Estabeleceu-se, então, um grupo de trabalho transfronteiriço para tratar do assunto, que já se reuniu 13 vezes desde então.
Com as reuniões, diz Marcela Vecchione, a migração cessou. Além disso, ela diz que os ashaninka peruanos hoje se mostram dispostos a gerir o território como os índios no Brasil, onde a legislação impede exploração de recursos em terras indígenas.
Eles também passaram a alertar os ashaninka brasileiros sobre violações da fronteira por madeireiros, o que, segundo ela, já gerou uma operação da PF.

Obstáculos e estranhamentos

A disposição em frear a exploração de madeira, porém, não parece ser unânime entre índios peruanos, o que dificulta um maior entendimento com os indígenas brasileiros.
Em reunião recente na Bolívia, Letícia Yawanawá, vice-coordenadora de uma organização de mulheres indígenas brasileiras, disse ter sido questionada por índios peruanos por que os "parentes" do Brasil não recorriam à venda de madeira para amenizar a pobreza.
"Eu respondi que hoje eles podem vender, mas e daqui a 50 anos? A floresta acaba. Saí triste do encontro, fiquei com dó dos parentes."
Já índios peruanos afirmam que, no Brasil, o movimento indígena parece estar fragmentado e ter menos força do que ONGs ambientalistas.
Líderes indígenas dos dois países dizem desejar, contudo, que haja mais diálogo entre os povos, para afinar o discurso e resolver as diferenças.
A relação deverá ser facilitada com a inauguração, neste ano, de um prédio na Universidade Federal do Acre que terá como uma de suas funções alojar indígenas durante reuniões internacionais 
Informações : http://www.bbc.co.uk

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Lideranças indígenas relembram luta do Caboclo Marcelino

 

 O segundo dia do Seminário Internacional de História e Cultura Indígena, nessa sexta, começou com uma série de memórias e lembranças sobre o Índio Caboclo Marcelino, que dá nome ao evento, na Aldeia Itapoã, próximo de Olivença (BA) - assista a vídeo abaixo. O Seminário tem a cobertura de indígenas que participam dos laboratórios de apropriação de Artes e Tecnologias promovido pela Oca Digital, realizado pela Thydêwá e Cardim Soluções Integradas, com o Patrocínio da Telefonica/Vivo e do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura da Bahia.

 

A primeira a falar foi a Cacique Valdelice, da aldeia que sedia o seminário nessa sexta: “Marcelino sofreu muito para não entregar a nossa terra, mas infelizmente foi vencido”. A liderança desapareceu por volta do ano de 1938, após se entregar para cessar as perseguições e os maus tratos contra o seu povo. Até hoje os Tupinambá não sabem do paradeiro dele. “Tiraram tudo da gente, até o direito de viver em cima da terra que a gente pleiteia. Mas com fé em Tupã, eles não vão conseguir porque estamos resistindo há 512 anos”, completa Valdelice.

O Cacique Agebê (Alício Amaral), da Aldeia do Acuípe de Cima, rememora: “Meu pai quando era vivo levava de comer para ele no Rio Cururupe. A polícia maltrava muito o Marcelino”. Seu pai saía de Olivença e andava cerca de 7 quilômetros dentro do rio, por dentro d´água para não deixar rastros para a polícia.

Perda do Território

O cacique também lembra como se deu o processo de perdas de território indígena. “A nossa terra foi tomada a troco de bebida, de mercadoria, até cabo de animal”, explica o ancião. Com o processo de retomada das terras Tupinambá, o cacique alerta, “muito cuidado meus parentes que estão morando em Retomada, porque eles estão matando e enterrando a nossa gente aqui mesmo.”

Dona Nivalda Amaral dos Santos, prima do índio Marcelino, conta como era o convívio com a liderança. “Marcelino ia para casa de minha avó, ia comer, era sempre rápido. Ela chegou a apanhar muito. Batia também, que era guerreiro”. O nome indígena de Dona Nivalda é Amotara, que significa "querer bem a todos".

Prisão

Marcelino não queria que entrasse o pessoal de fora em Olivença. Lutou contra as suas forças para que não se construísse SeminarioCabocloMarcelino-CabocloMarcelinoJornala ponte sobre o Rio Cururupe que liga Ilhéus a Olivença. Os não índios tinham interesse nas águas medicinais do Tororomba e na região e começaram a persegui-lo. “Um dia, eu vi Marcelino amarrado feito um porco. E gente que fez isso foi um delegado que casou com uma índia de Olivença”, conta a anciã.

“72 policiais pegaram ele e levaram, e ele teve de correr. E se escondeu debaixo de uma pedra na serra próximo a Santana. Até hoje a pedra está lá”, lembra Amotara. Marcelino passou 5 anos morando debaixo desta pedra, fugindo das perseguições. Na busca pelo índio Marcelino, as torturas e maus tratos da polícia contra os indígenas eram recorrentes. “Quando não encontravam Marcelino, encontravam os parentes. Quando a polícia encontrou Duca Liberato, arrancou a unha da mão para dar a conta de Marcelino”, relembra Agebê, que é o mais antigo cacique das aldeias Tupinambá da região, com 77 anos de idade.

Tortura

“Eles não tinham compaixão. Eu pequena vi arrancarem a unha de meu tio, espirrava sangue, mas eles não paravam”, rememora Amotara. A perseguição era implacável e o medo constante. “Antigamente ninguém sabia ler, ninguém sabia nada. A gente vivia corrido. A casa de vovó era uma casa de palha, de taipa, era cheia de buraco. A gente dormia junto. Ela botava um paninho, colocava a gente junto dela e dormia. Ela dizia, fiquem quietos porque a polícia está atirando. Ela criou 4 netos porque minha mãe morreu cedo”, rememora a anciã, que completa 80 anos em outubro.

Vendo o sofrimento de seu povo, o índio Marcelino resolveu se entregar. Amotara lembra das palavras de Marcelino ao se entregar: “Eu passei 5 anos debaixo de uma pedra fria, comendo peixe, assado na pedra, sem sal e sem farinha. Posso me entregar. Vou me entregar porque vocês estão judiando dos meus parentes.”

Demarcação Já

A anciã completa a sua fala, pedindo a demarcação das terras Tupinambá: “Não é valentia, é lutar pelo que seu. A terra Deus deixou para todos nós viver, para todos nós plantar, colher, dar, vender para sobrevivência se quiser, se não quiser dar. Na casa de minha avó, era uma fartura, porque os índios tinham o que dar.”


Por Coletivo Oca Digital

Funai cria novas Terras Indígenas em Mato Grosso e Pará

 A Fundação Nacional do Índio (Funai) publicou uma portaria criando mais uma Terra Indígena (TI), a Kapôt Nhinore, entre os municípios de Vila Rica e São José do Xingu, em Mato Grosso, e São Félix do Xingú, no Pará. Para dar sequência a esta decisão, a Fundação constituiu um grupo de trabalho, formado por funcionários da Funai e pessoas indicadas pela fundação, que conduzirá os estudos de delimitação desta área. Agora são 21 TI’s em estudo para criação ou ampliação. A portaria foi publicada dia 19 de setembro de 2012. 

 
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) acompanha estes processos de ampliação de áreas indígenas com atenção a fim de prestar toda orientação necessária aos produtores rurais que tiverem propriedades inseridas nessas novas delimitações.  De acordo com dados da própria Funai, Mato Grosso possui 57 TI’s regularizadas, com área total de 11,28 milhões de hectares (ha)  para uma população de 24,9 mil índios. Além destas, existem seis TI’s delimitadas (1,5 milhões de ha) e oito TI’s declaradas (841,08 mil ha). As áreas declaradas são aquelas que já possuem os perímetros definidos. E as delimitadas são as que estão demarcadas fisicamente por meio de marcos geográficos e reconhecidas pelo Ministé rio da Justiça.
 
Para a criação de uma TI, a Funai segue alguma etapas internamente: a primeira refere-se à elaboração de planos e estudos de viabilidade para formação da TI e posterior publicação no Diário Oficial da União. Em seguida, esta área em estudo passa pela análise de outros departamentos da própria fundação e segue para validação do Ministério da Justiça. Este é um ponto que merece destaque: “A Funai exerce os três poderes ao criar uma Terra Indígena, ou seja, emite as instruções normativas como poder Legislativo, demarca como poder Executivo e cuida dos recursos administrativos como o Judiciário. E tudo isso sem dar a chance para que as pessoas residentes nas áreas se manifestem. Isso é muito preocupante. Em um estado de direito como o nosso é o trabalho entre instâncias distintas e independentes que garante a transparência de todo o processo.”, avalia Prado.
 
Para se ter uma ideia da complexidade e da abrangência do assunto, a Famato analisou as últimas criações e/ou ampliações de TI’s em Mato Grosso e constatou que a média de cada área corresponde a 150 mil hectares. Se considerar as 21 novas terras que estão em estudo, serão cera de 3 milhões de hectares, além dos 13 milhões ha existentes entre as regularizadas, delimitadas e demarcadas. Isso representa 18% da área do Estado de Mato Grosso.
 
“É direito constitucional e é justo que os índios tenham terras. Mas é importante lembrar que estes processos de criação ou ampliação de áreas indígenas atingem vários setores da sociedade e não apenas os produtores rurais. E todos os índios e não índios devem ser ouvidos”, destaca Prado.
 
Informações: http://www.24horasnews.com.br